10 fevereiro 2014

O Guardião


- Vamos Xavier é por aqui!
- Sim senhorita Nina, estou procurando me apressar.
- Você não é mais o mesmo, meu amigo.
- Compenso o vigor que perdi, com uma paciência quase indestrutível que adquiri.
- Graças a mim é claro. Cansou-se de tanto me acompanhar em minhas aventuras. E construiu essa paciência inabalável por tolerar minhas loucuras cotidianas.
- Não nego que estar contigo, por tantos anos, foi responsável por quem sou hoje. E bem sabes que sou agradecido, sempre agradecido.
- Bobo como sempre, isso sim Xavier. Alias, tenho uma pergunta: Quem é mais apto para discernir mudanças num outro alguém? Uma pessoa que acompanha alguém crescer como você. Ou a que vê outro envelhecer como eu?



- Antes de mais nada, tenha cuidado com estes galhos no chão. O terreno aqui é bem acidentado, podem estar podres.
- Ah sim, sim, você são meus olhos caro amigo, meus olhos! Agora me responda.
- Bem, creio que essa seja uma de suas perguntas que ocupariam um capítulo inteiro de um livro. Acredito que alguém como você vê minhas mudanças voltadas em sua maioria para o pequeno ser que acompanha, evoluindo a cada dia. Enquanto eu vejo alguém mudando em direção ao deslumbre que o mundo provoca.
- Explique-me melhor isso Xavier, antes que minha mente saia voando.
- Ah sim, vamos tentar... quando vemos alguém nascendo, nosso mundo diminui e se concentra naquela pessoinha, em como evolui, seus passos que se aceleram em corridas, mas para aquele pequeno ser é diferente: o mundo começa pequeno e cresce pouco a pouco. Vi em você uma mudança de quem faz de cada descoberta, pessoa que conhece, cada coisa que aprende, numa ampliação do próprio mundo.
- Então você quer dizer que meu mundo aumentou e o seu diminuiu?
- É o que acontece quando crescemos. Não é nada físico, você bem sabe, é aqui dentro senhorita, no coração.
- Por essas coisas meu amigo que te chamo de guardião. Você vê o mundo assim pequeno em cada detalhe, consegue perceber os perigos e me mostrar o caminho, como fez com os galhos. Eu pelo contrário, ainda tão desajeitada, faço perguntas, imagino, sonho e quase me sufoco em tantas novidades que mal posso detalhar.
- Conviver é assim mesmo Nina, é a maior riqueza que se pode construir. Cada um trazendo o melhor de si, numa doação incapaz de nos empobrecer. Hoje te guardo de tropeçar em galhos enquanto não achas tempo para contar os próprios passos, da mesma maneira que a senhorita me guarda de olhar demasiadamente para trás e contar minhas pegadas até aqui.
- Você diz que minhas perguntas ocupariam um capítulo inteiro. E suas respostas então, o que me diz? Sim, argumentos para tantos outros. Acho que no final é mais do que perceber mudanças, mas provocá-las... Sabe, gostaria de ir mais devagar agora, o que acha?
- Não posso evitar rir, senhorita. Será minha chance de conduzir a conversa?
- Bobo como sempre Xavier, bobo como sempre!

Leiam mais uma história sobre Nina e Xavier em O Guardião - Olhar para o lado




2 comentários:

  1. Amei a foto, além do mais o texto está lindo... Excelente reflexão sobre um olhar acerca da vida de uma jovenzinha e um homem mais velho. Parece um diálogo de um avô com uma neta bem espertinha.

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