08 abril 2014

Parede de fotos



Enfim em casa, pensava Humberto. Estava cansado, consumido pelo dia. Entretanto ao entrar, não acreditava no que via: o melhor amigo sentado cabisbaixo ao lado do telefone. Era a mesma posição em que o deixou de manha, ao se despedir.
- Cara, já estou preocupado com você, a espera de um telefonema que nunca toca.
Nuno, que é como se chama o amigo de Humberto, levantou-se e foi tomar banho, com alguém em casa não havia perigo de se perder uma ligação, ponderava entre si.
Humberto estava realmente começando a ficar aflito pelo amigo, enquanto refletia, voltou-se para uma das paredes da sala onde haviam vários quadros com as fotografias premiadas de Nuno, que era fotografo. Seu trabalho é baseado principalmente em expressões faciais, sempre gostou de captar o semblante de uma pessoa ao satisfazer-se com algo, além de tantas outras formas de expressões. Era espantoso, ponderava Humberto, um jovem tão bem sucedido financeira e profissionalmente, passar os dias a espera de um telefonema.
Nuno lhe contou que certa vez passou uma semana com um modelo. Eram os primeiros tempos como profissional. A sessão de fotos durou tanto assim por um simples fato: o modelo não sabia do que mais gostava na vida, sempre foi muito pobre, pouco havia experimentado entre variações de cores, sabores e aromas. Foi uma sessão rica em expressões realizadoras. De balas de café a cappuccinos, cheiro do hortifrúti local à perfumes caros. Era a expressão de uma criança recém-nascida descobrindo o mundo no rosto de um adulto de sensibilidade imatura.
Realmente, Nuno sempre foi paciente. Para a expressão facial perfeita, investia dinheiro e tempo. Ele sempre esteve à espera de algo como agora. Lá estava ele, tinha acabado de estender a toalha molhada, estava de volta ao mesmo lugar ao lado do telefone.
- Sabe Nuno, estava aqui me lembrando da vez em que você esperou quase uma semana por uma expressão facial do seu agrado.
Nuno sorriu, sem encarar Humberto, com um daqueles sorrisos particular de uma glória sem aplausos. Motivado pela sua grande paixão, expressões faciais, ele finalmente disse algo:
- Tive uma grande sorte meu amigo, encontrar um belo modelo tão pueril em seus gestos.
- Parece que você lhe apresentou um novo mundo.
- Novas possibilidades eu diria, o resto foi com ele.
- Quem sabe a vida deva ser assim.
- Assim?
- Sim. Fazer nossa parte e esperar do outro apenas o que ele pode oferecer.
- É, quem sabe...

No dia seguinte. Humberto chegou a casa no mesmo horário e não encontrou Nuno. Havia um recado na geladeira que dizia:

Humberto meu amigo,

resolvi aceitar uma proposta de trabalho, viajo hoje mesmo. Quanto àquela ligação, haha... eu mesmo liguei e disse que não mais esperaria, creio que foi uma maneira de dar um ponto final. Não estou completamente feliz, mas bem aliviado. Te ligarei logo que puder.
Grande abraço. Nuno.

O telefone desta vez não demorou muito a tocar, os amigos se falaram por cerca de uma hora. Nuno parecia mais resignado e disposto, para alegria de Humberto. Combinaram uma programação para o próximo feriado, se despediram.
Ao desligar, Humberto notou uma nova foto em um dos quadros. Era do próprio Nuno sorrindo ao olhar em suas mãos uma das fotos de seu trabalho. Parecia estar particularmente satisfeita com ela.
-É. Começou a falar sozinho. – Parece que dentre todos os sorrisos, as considerações, os elogios, telefonemas, bens e afins; a felicidade só depende de nós, hoje. Não do amor que vai chegar, do sonho que vai se realizar ou da pessoa que vamos nos tornar.
O telefone tocou novamente. Humberto atendeu:
-Alo?
-Alo Humberto, chama o Nuno, por favor.
Tarde demais, pensava Humberto.

- Ele está viajando...



18 março 2014

Por todos nós



Imagine um mundo perfeito, através dos olhos de uma criança. Sinceros os seus olhos desenham um horizonte. Que ideia original nasceria, um lugar para mirar. Oh quão novo é o cotidiano em olhos inventivos.
Estalo de palmas se confunde com a chuva a cair, quase esqueci que esse som serve para muitas coisas. Eu o usei para motivar meus passos, assim eles pareciam acompanhados. Quando olhei em volta, muitos convergiam a um ponto onde palmas animavam passos.
Hoje sei que um mundo melhor, depende daqueles que convergem (juntos).


Este som é uma loucura, quando vemos tantos outros também em curso. Eu acreditava que precisava dar o primeiro passo acompanhado. Socos no vento, pedras que não se movem. Nos desgastamos tanto, querendo mudar a realidade em que estamos.
Temos que resgatar aquele olhar, ao menos para nosso mundo possível. Foi em curso que eu me encontrei, acompanhado. Contra o vento, contra o ego, contra todo significado vazio e pessoal. Que não ouve aquele chamado continuo: venha comigo, sacrifique o seu 'eu', por todos nós.
Hoje sei que um mundo melhor, depende daqueles que convergem (juntos).
Muitos estão presos a pessoas que são como âncoras, a deriva e acreditam que sozinhas podem carregá-las. Foi quando percebi que existem outras, que como velas nos impulsionam a navegar, sair do lugar.
Mas vou lhes dizer, que somente em curso encontrei tal pessoa.

Hoje sei que um mundo melhor, depende daqueles que convergem (juntos).




15 março 2014

Estragos e transformações




          Venha, você pode sentir a fúria do vento. Não conseguimos parar de notar o quanto ele leva, mas nos traz também a resposta para a pergunta, do que está fincado.
Da mesma maneira são os saltos do tempo. Parece que num salto, chegamos onde estamos. Lembramos daquele dia então, que nos perguntávamos, o que temos fincado.


Continue por aqui, para sentir essa tal fúria do vento. É maravilhoso perceber o que ele traz ao passo que leva também a dúvida, do que está fincado.
E se ele sopra aqui, é porque acredita em nosso movimento. O que é o sopro do vento? Se não a prova do indomável, que não se curva a essa mesmice cotidiana.
Confesso que não sei se o vento tem essa fúria. Já não sei se ele sopra assoviando ou gritando. Apenas percebo agora, que temos medido as mudanças, pelos estragos e não pelas transformações.




17 fevereiro 2014

Uma maneira de chegar à noite




Josy é uma menina de hábitos que você talvez goste, mas não deixe que ela perceba, pois ela faria tudo às avessas só para te irritar. Ela é mesmo fascinante, gosta de experimentar, compra pelo menos uma novidade no mercado a cada mês, mas nunca se esquece de levar junto no carrinho guloseimas e ‘gordices’.



É do tipo de pessoa que tenta desenhar um novo trajeto todos os dias para alcançar a noite, desinteressada da opinião alheia para seu atos,(lá vêm a louquinha... que garota sem jeito...) costuma trocar os pés enquanto anda e cantar músicas criadas na hora sempre que não pode mudar mais nada.
Nunca deixou de oferecer suas guloseimas às crianças da rua, por vezes deixava pacotes inteiros com elas, sem provar um doce sequer, mas não deixe que ela perceba que você a admirou... ela é uma garota que não conta o bem que faz nem a si mesma.
Mas talvez o tempo corra mais rápido para quem experimenta o sabor do dia novo, sem medo que ele seja amargo, tem pessoas que aprendem a adoçá-lo, temperá-lo.
Josy teve um dia que crescer, experimentar muitas coisas que a desagradavam, coisas que insistiam em fazê-la anônima na multidão. Usar as mangas na altura certa, não podia mais sujar os cotovelos, se sentia presa em algemas... seus braços não tinham mais o mesmo alcance. Que fase aborrecida pensava ela.
Josy não traçava mais caminhos novos para suas noites, virava sempre na mesma esquina, não podia se cansar de mais, não podia se atrasar. Encontrou um mundo em que até a respiração é contada por minuto.
Num entardecer estava na rua, havia acabado de chover, ela lembrou que adorava pular poças, não pôde deixar de trocar os pés assim. Mesmo em meio as nuvens o sol se punha, num brilho alaranjado e vermelho à frente de um fundo cinza e amarelo. Achou lindo e olhou pro lado, como um cinéfilo que tenta ver a reação dos outros ao assistirem um grande filme, porém as pessoas apenas desviavam das poças, olhos fitos para baixo. Viu que aquela beleza era só sua, pelo menos naquele quarteirão. Chocou-se: chovia ouro que caia só em seus bolsos.

Questionava-se da existência da beleza que ninguém nota. Sabia que naquele mesmo horário no dia seguinte, veria uma nova beleza, novas formas e cores, talvez mais amarelo e menos cinza, um pouco mais tarde um vermelho que se torna roxo, entregando-se ao azul quase negro da noite escura...
Viu-se adulta, mas capaz de tocar novamente seu íntimo, percebeu que não devemos crescer tanto, pois quanto maiores somos, maior é a nossa dificuldades de alcançar o centro, de rever nosso âmago. Tudo isso percebeu quando olhou uma obra prima cotidiana, ignorada pelos crescidos que são incapazes de pular poças, enquanto erguem os olhos ao céu que ainda não escureceu. Voltou pouco a pouco a não dar tanta atenção ao que os outros pensam, a compartilhar guloseimas, a andar trocando passos, fazendo seu próprio caminho. Era mesmo louquinha, uma menina sem jeito. Afinal ela é o tipo de pessoa que interessa ao criador de obras primas cotidianas.

Ah, passos trocados ainda a levavam à noite e isso era tudo que importava...


10 fevereiro 2014

O Guardião


- Vamos Xavier é por aqui!
- Sim senhorita Nina, estou procurando me apressar.
- Você não é mais o mesmo, meu amigo.
- Compenso o vigor que perdi, com uma paciência quase indestrutível que adquiri.
- Graças a mim é claro. Cansou-se de tanto me acompanhar em minhas aventuras. E construiu essa paciência inabalável por tolerar minhas loucuras cotidianas.
- Não nego que estar contigo, por tantos anos, foi responsável por quem sou hoje. E bem sabes que sou agradecido, sempre agradecido.
- Bobo como sempre, isso sim Xavier. Alias, tenho uma pergunta: Quem é mais apto para discernir mudanças num outro alguém? Uma pessoa que acompanha alguém crescer como você. Ou a que vê outro envelhecer como eu?



- Antes de mais nada, tenha cuidado com estes galhos no chão. O terreno aqui é bem acidentado, podem estar podres.
- Ah sim, sim, você são meus olhos caro amigo, meus olhos! Agora me responda.
- Bem, creio que essa seja uma de suas perguntas que ocupariam um capítulo inteiro de um livro. Acredito que alguém como você vê minhas mudanças voltadas em sua maioria para o pequeno ser que acompanha, evoluindo a cada dia. Enquanto eu vejo alguém mudando em direção ao deslumbre que o mundo provoca.
- Explique-me melhor isso Xavier, antes que minha mente saia voando.
- Ah sim, vamos tentar... quando vemos alguém nascendo, nosso mundo diminui e se concentra naquela pessoinha, em como evolui, seus passos que se aceleram em corridas, mas para aquele pequeno ser é diferente: o mundo começa pequeno e cresce pouco a pouco. Vi em você uma mudança de quem faz de cada descoberta, pessoa que conhece, cada coisa que aprende, numa ampliação do próprio mundo.
- Então você quer dizer que meu mundo aumentou e o seu diminuiu?
- É o que acontece quando crescemos. Não é nada físico, você bem sabe, é aqui dentro senhorita, no coração.
- Por essas coisas meu amigo que te chamo de guardião. Você vê o mundo assim pequeno em cada detalhe, consegue perceber os perigos e me mostrar o caminho, como fez com os galhos. Eu pelo contrário, ainda tão desajeitada, faço perguntas, imagino, sonho e quase me sufoco em tantas novidades que mal posso detalhar.
- Conviver é assim mesmo Nina, é a maior riqueza que se pode construir. Cada um trazendo o melhor de si, numa doação incapaz de nos empobrecer. Hoje te guardo de tropeçar em galhos enquanto não achas tempo para contar os próprios passos, da mesma maneira que a senhorita me guarda de olhar demasiadamente para trás e contar minhas pegadas até aqui.
- Você diz que minhas perguntas ocupariam um capítulo inteiro. E suas respostas então, o que me diz? Sim, argumentos para tantos outros. Acho que no final é mais do que perceber mudanças, mas provocá-las... Sabe, gostaria de ir mais devagar agora, o que acha?
- Não posso evitar rir, senhorita. Será minha chance de conduzir a conversa?
- Bobo como sempre Xavier, bobo como sempre!

Leiam mais uma história sobre Nina e Xavier em O Guardião - Olhar para o lado




21 janeiro 2014

A vida e seus refrões



A vida e seus refrões, o modo como tudo se repete. Esperávamos por algo novo quando tudo que temos é familiar.
A vida e seus refrões, em cada atitude que continua a mesma, a surpresa é ainda haver decepção.
A vida sem plural de quem só a conjuga no singular; ainda um refrão sem sentido, pois paramos de pensar sobre ele.


Devemos pensar nas razões que nos fazem repetir os nossos passos. Existem músicas que tocam tanto e dentro delas palavras que perderam o encanto... ditas, reditas, sem vida... assim dormentes quando ouvidas.
A vida e seus refrões. Grãos que puseram num saco, tantos que o fizeram pesado. Carregamos a mesma coisa por tanto tempo... sentimos, não sentimos mais... nos arrependemos.



A vida e seus refrões, a pureza daquilo que é só, um gosto onde não há graça, pois não há gosto.




18 janeiro 2014

Um mundo de possibilidades

Não me parece certo arrancar uma lágrima à força de alguém. Não sei até onde enxergo, mas se vejo, vejo um mundo de possibilidades. Caminhos de esperança, nos olhos daqueles que com fé me perguntam o que fazer...

Quando não se tem ninguém ao lado
Quando o vazio se preenche com sombras do passado
Quando as mãos só tem uma a outra de companhia
Quando tudo que é familiar, só nos faz desejar uma amanhecer ensolarado e uma sombra para contemplar todos os reflexos em paz...

Vejo um mundo de possibilidades, percebemos nossos anseios e dúvidas refletidas nas obras dos poetas que se foram. Encontramos tudo que procuramos nas folhas que folheiam os ventos.
Não é uma surpresa quando nossos olhos atentos buscam uma palavra, buscando Você.
Um mundo de possibilidades através de olhos. E através deles vemos além de ‘uma profunda esperança’, mergulhamos um pouco mais neste convite para encontrar a alma, contato indescritível que nos faz sentir assim tão mais próximos.

Eu sei que me sentirei seguro
Agora que sei encontrar nas fendas de luz, um rumo


            Tudo que busco, busco pela minha falta de Deus. Tudo que vejo, somente enxergo por hoje olhar bem menos para mim.
Não restam mais folhas para o vento folhear. Eu vejo um mundo de possibilidades: Deus!



11 janeiro 2014

Os sábios não fingem

"No jardim da vida, o velho e o novo se contrasteiam, como a flor que murcha e a que brota. Uma se abaixa com a certeza dos dias, pois vê sua raiz. A outra com o vigor se sente insegura, pois é grande a imensidão que aprecia. L.Ol."


O avô foi apressadamente em direção ao neto, assim que percebeu que ele tinha caído enquanto brincava, ao chegar até a criança percebeu que ela escondia o rosto. O avô que já havia notado o orgulho do neto, usou de uma voz afetuosa porém firme, afirmando que ele não precisava fazer aquilo, afinal uma lágrima é tão suave que pode ser capaz de escorrer entre os dedos.
O menino era do tipo que enxugava as próprias lágrimas enquanto fingia recolher ciscos dos olhos. Levantou-se ensaiando um sorriso, assegurou que não era nada.
Mas era muito sábio o avô daquela criança, pois sabia que quem esconde uma fraqueza não está muito distante de quem encoberta um erro. O orgulho toma pelas mãos a ambos e os convence de seu tortuoso caminho, usando por vezes de tal persuasão que eles são capazes de ver esta trilha sinuosa de maneira reta.
Por isto, sentou-se com o pequeno e lhe mostrou um espelho que tinham por perto. Tentou lhe fazer ver que a imagem da tristeza pode evaporar rapidamente, mas fingir que uma lágrima não foi provocada por dor, mas por qualquer arranhão que vento possa trazer é em suma fingir. Os que fingem não importando o motivo usam do que é falso. Alegorias, mentiras e máscaras. Uma máscara mesmo que perfeita sempre poderá ser notada. E assim é sentenciada por quem vê: falsa.


O ancião continuou conversando com o neto lhe dizendo que não podemos viver a vida contornando erros ou fraquezas, ao invés de assumi-los, pois eles sempre estarão ao nosso redor, esperando para serem admitidos ou encobertos. Ao serem encobertos, aparecem as mentiras, as alegorias e as máscaras, nunca perfeitas o bastante, remendas e re-remendadas.



(...)

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31 dezembro 2013

Uma história de Ano Novo - O viajante

"Durante suas viagens, é importante manter sempre algo em mente: quando uma coisa termina, uma outra coisa começa." retirado do filme 'O amor acontece'.

Passaram as últimas dez horas daquele ano, pouco faltava agora. O sentimento de Thomas era de uma esperança admirável. Fizera escolhas importantes naquele ano, terminara etapas que lhe trouxeram marcas à parede e sorrisos eternos. Quis coroar as últimas horas num lugar especial, comemorar de maneira silenciosa, sem fotos e estatus, um brinde muito particular. Descobriu ‘Um lugar para estar’, quando aprendeu que perfeição não tem semelhança dentre as alternativas, soube entender aqueles instantes e se percebeu como ser humano, nada além disto, refletia, mas nem por isso tão pouco assim.
Desceu as escadas de seu apartamento, na expectativa de encontrar um ou outro conhecido com calma, para lhes desejar Feliz ano novo. Não viu ninguém e prosseguiu seu caminho. Para Thomas aquele era realmente um momento de reflexões e lembranças, mesmo as mais amargas agora tinham qualquer coisa de um tempero singular.
Desta vez recebeu poucas ligações, faziam falta sim, pensava Thomas, mas era inevitável. Suas escolhas inegavelmente retiravam objetos aparentemente belos, porém empoeirados, das prateleiras. Para dar lugar ao novo, era necessário tal sacrifício. O que temos na vida não podem nos servir como meros objetos de decoração, cuja limpeza e duração é responsabilidade inteiramente nossa. Pelo contrário, é preciso abrir espaço para algo pulsante e de vida própria, que flui, enquanto lhe doa e de ti recebe vida, num ciclo interminável. Com troca de sorrisos e gentilezas, o respeito do tempo de cada um, o sacrifício pelo que é coletivo, enquanto renunciamos pequenas partes de nós mesmos. Thomas tinha a certeza que era isso que queria, sentia-se mais leve para continuar, fazia de cada luz que riscava o céu a essa altura, como seu próprio braço alcançando lugares maiores, estava leve, leve...


Não pensava mais em promessas para um novo ano, mas retirava lições daquele que estava se findando, tinha motivos para se sentir satisfeito, podia olhar, se fosse o caso, para o seu ‘eu’ de um ano atrás e lhe dizer: sinta-se esperançoso. Daria um conselho a ele: Resgate alguns sonhos de infância, corrija certos caminhos tortuosos da juventude, e avalie se aquilo que você abriu mão, mesmo sem querer, quando se tornou adulto, merecia mesmo ser esquecido.
Mas que devaneio, deu-se conta Thomas, aconselhar a ele mesmo no passado. Não precisava disto, afirmava a si mesmo. Que grande privilegiado, ele não era apenas mais um homem em dado momento da vida, era um viajante que dava prosseguimento a viagem ao passo que recuperando toda bagagem, desfez-se do sobrepeso. Um homem mais leve por fora, enquanto se completava por dentro.
Logo estava no lugar em que escolhera para agradecer pelo que se foi, recepcionando o que chegava. Foi um bom ano novo e a história termina aqui. Pois essa não é uma história sobre o amanhã e os 364 dias que o seguem, e sim sobre o hoje e todos os 364 dias que o antecedem. Se você parar para pensar é disso que todo o réveillon se trata. Talvez amigo leitor você não tenha tido o melhor ano de sua vida, é possível que esteja decepcionado pela quantidade de promessas não cumpridas por você mesmo ou por quem você ama e de quem esperava tanto.
Mas nosso convite é que você olhe sim para trás e retire lições. Pode contar com isso, é seu. Promessas e expectativas, são coisas nada palpáveis, ainda não são propriamente suas. Reúna suas conquistas, mesmo as que não vieram em formato de troféu. Suas conquistas são cada uma das coisas que você aprendeu, cada traço em si que você conheceu. Faça esse teste e aplique as lições em seu próximo ano, não deixe que seja uma data para enumerar frustrações e promessas vazias. Não permita viver mais um ano pelo que pode acontecer. O homem que se molha uma vez na chuva, olhando cuidadosamente para essa fato, passa cada vez menos a esquecer o guarda chuva, aprendeu por observar menos tempo àquela infinidade de promessas.

Feliz ano novo, por tudo que você se tornou e ainda pode se tornar, pelo ano que em curso termina hoje, mas não acaba, pois dele você pode continuar retirando lições.

23 dezembro 2013

Uma história de Natal - O tripé de plástico

“As luzes piscam enquanto alguns olhos se apagam. Mesas fartas e corações vazios... que não seja assim.” L.Ol.

Meu nome é Nícolas, essa é uma historia de natal. Não sei se dizer isso levanta alguma expectativa, traz alguma história com mesmo tema à sua mente ou ainda torna tudo menos atrativo, mas é a história de natal de minha família. Nela tem elementos clássicos, papai Noel, ceia e uma lição, que eu aprendi pelo menos. Acredito que é uma história digna de ser contada, vamos a ela...
Sempre colocávamos uma árvore de natal num canto específico da casa nessa época do ano. Meu avô que morava conosco não perdia a chance de brincar:

- Que coisa estranha, não tem raiz e se apoia num tripé de plástico, nem de longe me faz lembrar das árvores que vi serem arrancadas do nosso bairro desde minha infância.

Mamãe reprovava a brincadeira de vovô, parecia se importar com o que eu pensaria, ela me abraçava enquanto falava que no que dependesse dela eu viveria a ‘magia do natal’.
De fato essa lembrança vinha lá dos meus cinco, seis, sete anos. Eu ainda não entendia direito, mas ficava animado, era uma época de presentes e de comidas gostosas, com tamanha tradição que papai dizia:

- Hey, vamos comer e aproveitar essas delícias, pois agora só ano que vêm.

Isso me soava normal, no mercado vendiam-se essas coisas somente nessa época, pelo menos eu pensava assim, dado o destaque que elas ganhavam na prateleira. Ah, sim... tinha o papai Noel também, eu não ligava para ele, ele ficava no shopping, na minha cidade não tinha shopping. Mas mamãe não queria me poupar da ‘magia’ e fez papai vestir-se como o ‘bom’ velhinho, não deu nada certo, papai era comprido e tinha as pernas finas, não combinava com aquele barrigão postiço. Vovô ria e ria, e eu também, pois sabia que era meu pai, ele não podia fazer oh oh oh, estava espirrando, a barba lhe dera alergia. Mamãe estava visivelmente frustrada e dizia:

- Veja filho presentes, olha filho os doces que você tanto gosta.

Eu não me importava, gostava de ver vovô rindo, gostava de comer, de cantar aquelas músicas e de estar com minha família. De fato era uma magia, mas no ano seguinte as coisas mudaram. Eu com oito para nove anos, via vovô cada vez menos risonho e brincalhão, mamãe atarefada com ele, que pouco saia do quarto. Chegada a época de natal, a casa não tinha enfeites como nos outros anos, muitos remédios ocupavam as prateleiras, e do fogão saiam mais sopas do que pratos especiais.
Na semana de natal fui até a casa de um amigo novo, ele tinha acabado de se mudar naquele semestre, eu estava curioso para ver uma casa nova enfeitada, mamãe me pediu para que eu aproveitasse enquanto se desculpava por não poder me oferecer muita magia daquela vez.
Quando cheguei lá, vi uma pequena guirlanda na porta, mamãe adorava, na sala tinha uma árvore, não era tão bonita quanto a nossa, pensei. Mas num outro canto havia bonequinhos, não era boneco de neve, ou papai Noel. Parecia uma cena, achei muito estranho, não tinha nada a ver com o Natal. Tinha uns animaizinhos, um homenzinho ajoelhado, uma mulher e um bebê no centro, vou lhes dizer o que achei, achei muito feio. Mas não era o único, tinha outro parecido, ainda maior, neste alem do casal e bebê havia três homens cada um trazendo uma coisa na mão, como presentes, devia ser para o bebê, pensava eu.
A mãe de meu amigo notou minha admiração quanto aquelas cenas e me perguntou se eu sabia o que era, eu não sabia. Ela me falou de Jesus, achei estranho de novo. Jesus era aquele que estava na cruz, pensava eu, com uma cara triste, saia sangue de suas feridas. Era o que eu sempre via sobre Jesus.
Ela me explicou com paciência, que aquela cena que eu via era o nascimento de Jesus, ele tinha sido prometido para a humanidade, para salvá-la e religá-la a Deus, só que não tinha um lugar para eles na cidade, ele acabou nascendo numa manjedoura, era um Rei humilde, o filho de Deus.
Ali estava a representação de seu nascimento. Com seus pais e junto a eles os três reis magos trazendo presentes. Era o que comemorávamos no natal, insistia ela, com um sorriso fraterno, o nascimento de Jesus. Ela contou toda a história do menino-deus, presenteou-me com um pequeno livro ilustrado e uma réplica menor da cena do presépio, era como se chamava aquela representação.


Ao voltar para casa, vi vovô, de pé rindo de novo. Até mamãe que não gostava das brincadeiras dele também ria. Dei um grande abraço nele e mostrei o presépio. Falei, veja vovô é o aniversário dele. Vovô chorou e eu não entendi. Contou-nos que ele queria passar pelo menos mais um natal conosco, mas dessa vez comemorando da maneira certa. Fez esse pedido em forma de oração, mas quando naquela manhã acordara melhor, já se esquecera da promessa de comemorar o nascimento da pessoa certa no Natal. Coisa que ele tantas vezes fizera. Talvez por isso mamãe se esforçasse tanto para fazer um natal especial, cheio de bolas enfeitadas numa árvore sem raiz, apoiada num tripé de plástico.
Ligamos para o papai, ele iria trazer algo para comermos, mamãe faria apenas uma sobremesa dessa vez, e mais tarde antes de cearmos, esquecemos os presentes e todos juntos agradecemos e desejamos feliz aniversário a Jesus. Vovô partiu no outono seguinte, ele disse que nunca mais implicaria com o tripé de plásticos desde que não nos esquecêssemos do presépio, foi uma de suas últimas brincadeiras, a qual levamos à sério até os dias de hoje.

Essa é a história de uma família que apoiava a festa que todos amam num tripé de plástico. E seu Natal, no que se apoia?

Espero que em algo bom. Um maravilhoso e feliz Natal a todos!


Apêndice:

Um menino nos nasceu

O povo que caminhava em trevas
viu uma grande luz;
sobre os que viviam na terra
da sombra da morte
raiou uma luz.

Fizeste crescer a nação
e aumentaste a sua alegria;
eles se alegram diante de ti
como os que se regozijam na colheita,
como os que exultam
quando dividem os bens tomados na batalha.

Pois tu destruíste o jugo
que os oprimia,
a canga que estava sobre os seus ombros
e a vara de castigo do seu opressor,
como no dia da derrota de Midiã.

Pois toda bota de guerreiro
usada em combate
e toda veste revolvida em sangue
serão queimadas,
como lenha no fogo.

Porque um menino nos nasceu,
um filho nos foi dado,
e o governo está sobre os seus ombros.
E ele será chamado
Maravilhoso Conselheiro, Deus Podero­so,
Pai Eterno, Príncipe da Paz.

Ele estenderá o seu domínio,
e haverá paz sem fim
sobre o trono de Davi
e sobre o seu reino,
estabelecido e mantido
com justiça e retidão
desde agora e para sempre.
O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso.

[Livro de Isaias capítulo 9 versos 2 ao 7]

18 dezembro 2013

Jogo limpo

Na vida cometemos erros e por vezes fechamos os olhos para eles. Torcemos no íntimo que ninguém se lembre deles, ou que ao menos não toquem no assunto de novo. É um desejo muito particular de não ser questionado, não ter sua honra e imagem arranhadas. O tempo passa, somos vitimas de piadinhas, ‘tiração’ de sarro. Sim, nossa imagem ficou arranhada, da pior forma... não houve menção em assumir nada. As ondas não marcam a areia definitivamente, mas vem e vão, podemos ver a linha que ela faz a cada vinda. (...)
Havia um time de futebol que era muito conhecido em seu país. Tinha história. Produziu grandes jogadores que se tornaram ídolos em uma nação tão carente de exemplos. Mas carência de bons exemplos também tinha refletia no tal time, eles o dilapidaram tanto quanto puderam, tornando o grande Clube de futebol numa sombra desajeitada de seu passado glorioso.
 Viver de seu passado maravilhoso não foi suficiente para mantê-lo em pé e ele sucumbiu ao ponto de em seu pior ano, não ser mais contado entre os grandes. Sabemos ainda assim que em meio a uma crise alguém pode se mostrar grande, portando-se com dignidade, enfrentando as dificuldades. Não foi o caso, o grande time de futebol se achou digno de, por meios escusos, permanecer entre os grandes. Conseguiu. Porém no ano seguinte, foi tão mal que caiu novamente e continuou caindo e caindo. Já era contado entre a terceira força do futebol de seu país, os dias de glória se foram.


Apesar dele ainda ser lembrado como aquele que caiu e não aceitou a queda, usando de meios reprováveis para se por de pé, veio o renascimento, pelo menos parecia... disputou em campo com a terceira força e sagrou-se campeão. Parecia num rumo menos nebuloso, retornando não apenas para a segunda força (possibilidades de primeira também), mas antes e muito mais importante, para o caminho honroso e digno, do passo no tamanho das próprias pernas, sendo tão bom como fosse possível, retirando orgulho disso. Mais uma vez, não foi o caso. Ao invés desse famoso time ir para a segunda força, outra vez de maneira escusa pulou diretamente para a primeira. Achava-se digno de ser contado entre os grandes. É bem verdade que ele não foi o único time que saltou dessa maneira, mas sua atitude era notória, estava marcado pelas vergonhas anteriores.
Enfim, assim ficou. Todos fecharam os olhos, mas não se esqueceram. Aquele time ficou estigmatizado como um clube que não precisava temer a queda, pois sempre seria escorado por muletas vergonhosas, porém poderosas.
Os anos passaram, a vergonha se tornou história, tanto quanto vários troféus, tanto quanto vitórias emblemáticas. Uma história eternamente manchada. Esse time passou ainda por dificuldades é verdade, mas mesmo a duras penas manteve-se entre os grandes. Ergueu-se, fazendo sucesso novamente. Era um sopro vigoroso na empoeirada sala de troféus, um orgulho reconquistado, mesmo em meio à vergonha do passado sempre relembrada.
O passado era mesmo uma página colada no livro da última estante, na última prateleira, no lado mais escuro da sala. Um lugar que ele não queria revisitar ou recontar. E quanta glória, para deixar essa parte mais esquecida ainda: disputas de novos títulos vieram e pouco tempo depois, grandes conquistas. Sim, ele podia se assentar entre os grandes novamente, mesmo que timidamente, torcendo para que ninguém lembrasse que ali ele não deveria estar.
Alguém disse uma vez: a vida é como uma roda gigante, um dia você está em cima, outro em baixo. Aquele time sabe bem o significado disso. De grande a assentado na terceira força, de vigoroso conquistador de títulos, a usuário de tribunais para ganhar entre engravatados o que não conquistou em campo. Depois de mais um título entre os grandes, aquela sombra negativa parecia cada vez mais apagada, entretanto sua cabine na Roda Gigante estava descendo novamente e com cores fortes retocou o desfoque passado. O grande time seria mais uma vez convidado a descer um degrau em sua glória, parecia o passado clamando pelo o que não foi cumprido.
O embate terminou em campo, com o soar firme do apito. Ele cumpriria seu próximo ano entre a segunda força. As piadinhas vinham, o time parecia conformado, disputaria finalmente com dignidade aquilo que lhe cabia.
Surpreendentemente não apenas a história da queda se repetia, a disputa em campo havia terminado, mas os tribunais ignoraram o apito final. Dessa vez , ironicamente seguiram a regra beneficiando mais uma vez o grande Time. Um time de menor expressão havia escalado um jogador em situação irregular. Todos que podiam ter evitado esse mal que converteu a macia bola de futebol em um duro martelo de madeira, nada fizeram e o pequeno time perdeu os pontos ganhos em campo, para a sorte do famoso time, esse pequeno tinha poucos pontos a mais do que ele, assim o famoso pôde mais uma vez se salvar. Era o justo, embora pouco moral, era o que todos sabiam que era certo, mas sentiam que estava errado.
No esporte, o que se decidiu em campo perdeu o valor naquele dia. Aqueles que economizaram moeda por moeda para assistir aos caros confrontos pagaram pelo que foi decido não diante de seus olhos, mas numa fria sala de tribunal. A derradeira notícia chegou pelas páginas de jornal.
A história do grande time estava mais uma vez embebida na vergonha. Antes as quatro linhas eram suficiente para escrever uma história de futebol, hoje ela precisa de páginas e páginas de processos, ofícios... o grito apaixona do de ‘gol’  foi substituído por uma fala seca de ‘caso encerrado’.

Epílogo

Foi um dia atípico onde o certo e o imoral foram escritos com a mesma caneta. Alguns de nós sonhou com uma decisão difícil, porém libertadora e corajosa que o grande Time poderia tomar:

Que ele se abstenha de ficar entre os grandes e aceite cair, que faça o contrário de anos atrás quando tinha o dever de descer e não desceu, quando devia subir um degrau e avançou arrogantemente dois. Por favor, diga para todos ouvirem: temos o direito debaixo dos braços, mas um dever em nossas consciências. Estaremos na segunda força.
Não será essa uma oportunidade do destino de limpar uma história tão suja e empoeirada?

A oportunidade de continuar grande, sem levantar troféus, mas antes e mais importante, levantando a cabeça.



Contextualização

O Fluminense Football Club foi rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional pela primeira vez em 1996, não disputou a serie B em 1997 em atitude arbitrária. Ainda assim foi novamente rebaixado para segunda divisão e no ano seguinte para a terceira. Disputou a terceira e venceu, portando deveria disputar a segunda divisão novamente, mas foi colocado na primeira divisão na criação da copa João Havelange em 2000, juntamente com outros times que também não tinham conseguindo o acesso pelo campo e bola como o Bahia e o Guarani.
Permaneceu na série A, ganhando inclusive 2 títulos depois disto. O primeiro em 2010 e o segundo em 2012. Em 2013 tornou-se o primeiro time campeão Brasileiro rebaixado no ano seguinte. Dada sua péssima campanha, ficando em décimo sétimo lugar num campeonato onde os quatro piores colocados são rebaixados para a série B.
A Associação Portuguesa de Desportos, time de menor expressão havia ficado com 48 pontos enquanto o rebaixado Fluminense com apenas 46. Após o término do campeonato nacional de 2013, houve a constatação que Portuguesa havia escalado o jogador Héverton de maneira irregular e por isso perdeu quatro pontos, ficando abaixo de Fluminense, sendo por sua vez rebaixado e livrando o popular time carioca da serie B de 2014 em decisão pelo Supremo Tribunal de Justiça Desportista - STJD, no dia 16 de dezembro de 2013.

08 dezembro 2013

Um motivo a mais

Gostaria de compartilhar com todos vocês, caros leitores, está poesia feita em minha adolescência. Publico-a pois a tenho como algo guardada em minhas lembranças, além de ter um conteúdo que ainda levo em minha vida. Espero que gostem, comente e compartilhem!


Um motivo a mais


Eu queria ser como as aves nos céus, 
Voam pois são livres
E não olhar para trás para ver o que se passou
Pois levo comigo o que amo


Eu só quero um motivo a mais para sorrir

Olhar o infinito do céu e lembrar de você



... Eu queria um amor como o do filho pela mãe

Sincero, lindo e simples

Ele não precisa de nada para provar o amor além

Do lindo simples e sincero: Amo você.



Eu só quero um motivo a mais para sorrir

Olhar o infinito do céu e lembrar de você



Eu queria uma inspiração divina celestial

Vinda das mãos do Pai

E passear pelas poesias que vivo e já vivi

Só para escrever uma canção de amor para você



Eu só quero um motivo a mais para sorrir

Olhar o infinito do céu e lembrar de você








21 novembro 2013

O Confronto



"Até a glória e a virtude têm inimigos, pois parecem condenar procedimentos contrários postos em confronto com elas."  Tácito

...dirigiu-se à arena sabendo que enfrentaria Golias...


Não existia realmente preparação que o deixaria calmo para aquele embate; sem uma noção do quanto isto poderia se tornar sem sentido, enfrentando um adversário que não defende o que lhe parece certo, mas apenas o osso que roe.


Um gigante que se faz grande por inferiorizar os que estão a volta; que faz gigante o espaço entre ele e o outro. Provocando medo, para que os demais o vejam maior ainda, distorcendo a realidade. Ignora talvez, que ao invés de parecer grande, apenas apresenta uma imagem aumentada e desfoque. Passa a encenar com pouca humanidade, oferecendo a ofensa em vez da outra face, professando a fé naquele que ensinou o inverso.
Essa é a figura deste adversário, dito isto podemos entender em que pé se dará o confronto. Para se combater alguém que não tem base em si mesmo,do tipo que facilmente aponta ciscos em olhos alheios enquanto carrega uma trave no seu; insiste com propósitos baixos quando corrige uma vírgula, ao passo que erra uma sentença teórica e prática. O confronto apresentava questões éticas defendidas por um, que apenas um ‘cão esfomeado’ entenderia como uma ameaça a seu osso.
Podemos perceber então que quando se há um confronto, é possível que os envolvidos não estejam lutando pela mesma coisa. Quando buscam os seus objetivos acabam se engalfinhando, portanto caso não saibamos exatamente o que o outro valoriza, poderemos estar não apenas respingados de lama cujo adversário fuça em rigor de seu osso, mas mergulhados na sujeira, afinal se há atrito entre dois corpos, na queda eles podem pender para o mesmo lado.
 Vemos agora a missão de lutar por nossas crenças, ela nos dará uma oportunidade peculiar por isso devemos antes de tudo identificar o inimigo e suas armas, assim como disse Sun Tzu.


Espero que esse texto embora duro seja um convite à reflexão. Boa noite a todos.




12 novembro 2013

O vício da serpente

Havia uma serpente muito orgulhosa. Encobria repetidamente seus erros e fraquezas. Ela pensava que se fingisse que não existiam ou os ignorasse, não precisaria reconhecê-los. Assim fazia e seguia, como se nada tivesse acontecido.


A vida apresentava novos capítulos e sua fraqueza se evidenciava novamente. Outras situações que davam luz a ela aconteciam, mas a serpente não havia aprendido a lidar com elas, aquele ponto continuava um ponto fraco. Poderia ser uma nova oportunidade de reconhecer, crescer e seguir, mas ela insistia em não admitir suas fraquezas.
 Contorcia-se ainda mais para esconder esse ponto. Fingia e fingia novamente, acreditava ter superado, estava enganada. Com os erros fazia o mesmo. Afastava-se de quem os conheciam se preciso, apontava neles umas falhas na esperança que as suas saíssem de foco. Tinha muitos discursos sobre moral, mas tinha pouca moral para que fizessem sentido.
 Ignorava pessoas e lugares na esperança de permanecer incorrupto diante de sua face orgulhosa. Não só deixava de assumir seus erros, como não poupava esforços para acobertá-los. Não importava o que ou quem necessitasse atingir para tal.
Com o tempo seus erros e fraquezas tomaram a forma de estacas e passaram a estar fincados ao redor da serpente e também em seu caminho. Ela se desviava de uma, se arranhava em outro, não eram poucas as vezes em que se confundia e dava voltas e voltas no mesmo lugar ao tentar contorná-las.
Quanto mais erros insistia em não assumir, mais estacas se fincavam. Quanto mais ardiloso o que fazia para encobrir suas vergonhas, maiores eram as estacas.
Ela precisava parar, arrancar as estacas do caminho. Porém preferia contorná-las quando possível. Se arranhar em algumas quando necessário. Usar desvios que acrescentavam quilômetros ao seu caminho que sem estacas levariam metros.

Não foi tarde quando a serpente se perdeu. Desesperando-se procurava sem cessar por uma saída. Estava tão ansiosa e apreensiva, rastejava mais rapidamente, arranhava-se nas estacas, estava ferida, com graves hematomas. Assim também feria a outros, estava cega, sem rumo, sem referência. Tomada de tal estado de pavor, contornou a maior estaca que ali havia. Passou pelo seu lado, até encontrar o que não tinha percebido ser seu rabo. Deu um nó em si mesma. Ficou presa e chorou sem poder esconder o rosto, pois em sua prisão ela mesma havia colocado cada uma das grades, tais como estacas.





08 novembro 2013

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